terça-feira, 26 de fevereiro de 2008



Retornei para casa e arrumei meus aposentos da melhor forma que pude. Joguei fora algumas fotos, separei para dar umas roupas e rasguei todos os cartões. Ainda ficaram lembranças, mas nada que não passem de objetos que com o tempo perderão o significado e espaço. Com meu livro em punho, tentei ser levada para outra dimensão, mas a obra foi encerrada e a sensação não mudou. Apaguei as luzes e desisti da prece, mas não consegui mergulhar no sono. Em meio a tudo isso, comecei a sentir um incômodo, que logo se transformou em uma forte cólica e chegou próxima a sensação de uma crise de pedra na vesícula, só que me recusei a ir parar em um hospital. Juntei o que sobrou de minhas forças e procurei por um comprimido e uma comida que pudesse aliviar aquele rombo em meu estômago. Um pouco melhor, escolhi algumas opções de minha humilde cinemateca e esperei o sol raiar.

O dia amanheceu nublado, ameaçou abrir o tempo, mas foi apenas uma impressão. Tinha muita nelblina e o céu estava escuro. Recolhi o celular recheado de mensagens e fui até a janela antes de escolher minhas vestes. Fingi que tinha acabado de acordar e fiz o que todos fazem, mecanicamente. Escovei os dentes, tomei um banho e depois de uma xícara de café, que não bebia há meses, fiz o mesmo trajeto que dei início em abril de 2005. Na olheira dei um jeito com a maquiagem, na aparência com a roupa e no celular com as imagens. O rosto já está seco, não existem mais lágrimas. No lugar do coração há um imenso vazio, que finjo não notar. Quanto a dor, bem , ela vai se transformando em doses homeopáticas.

A agenda da semana já foi fechada e o que não me falta são companhias. Na empresa as coisas seguem sem grandes mudanças e o que apareceu não me diz ser nenhuma novidade.

O telefone continua tocando, mesmo sem ele. O corpo funcionando, mesmo sentindo falta dele. A vida rolando, mesmo sem a presença dele. Já consigo organizar meus compromissos sob a nova condição e a expectativa é só ao que se refere à minha reação, bem, quem sabe, talvez, eu pegue o jeito novamente...

Estou de volta a vida cigana, ao mundo mutante. Com um pano de fundo sempre sozinho, seguindo no meu caminho e sem ser romântica.

As defesas voltaram ao lugar de onde não deveriam ter saído. O jogo de xadrez já está montado, mas ainda não pretendo começar a brincar. Não há "adversários" em vista e meu rei permanece aguardando o concerto da coroa. Em contrapartida, os bispos estão inteiros, os cavalos montados e a rainha implacável.

Não teve início nenhum conflito e não há indício guerras, pelo menos até o momento. As armas já foram recolhidas e da imagem desapareceu o pó acumulado com o tempo. Junto disso, foram embora outras coisas, porque toda batalha precisa de novos armamentos, de novas proteções, de novas armadilhas e no que se refere as falhas, bom, as falhas foram melhoradas, a forma lapidada e os sentimentos decapitados.

Ficou para trás a transparência, a humilhação e a crença. É neste lugar que guardei a ilusão, os planos e a pena de mim mesma, bem ao lado da fidelidade, adoração e compreensão. Em vez disso, substituí por pitadas de egoísmo, de auto-preservação e de narcisismo.

Depois de toda a avalanche, pela primeira vez, não escolhi você, não escolhi entender, não escolhi amenizar, não escolhi apaziguar, não escolhi perdoar. Pelo menos hoje, escolhi a mim mesma, escolhi parar de não enxergar o sinismo, de não olhar os defeitos, a imaturidade, a indecisão, escolhi abrir os olhos para o que não passou de encenação. Optei por mim, porque não sou apenas personagem, porque não uso fantoches, porque me esquivo de máscaras, porque me recuso a não ter opiniões, porque meço a intensidade de minhas decisões e porque, acima de tudo, não concordo com desrespeito.

É verdade que o dia ainda está muito longo e a noite mais ainda. Os passos são inseguros e as dúvidas atormentam. O pensamento me leva a você e os lugares também, mas isso tem tempo, tempo este que já está sendo cronometrado e controlado e, para minha surpresa, também consigo dar alguns sinais de recuperação. Lógico que o rei ainda não foi coroado e a jogadora está manca e engessada por ficar sem uso, mas a frieza e impiedade a ajudam a reerguer a muralha, uma que não se pretende demolir.

A batalha deixou baixas eternas, mas já consigo enxergar além das fumaças. Ainda não me sinto uma jogadora nata, não sinto cheiro de carniça e nem estou pronta para um churrasco, mas já consigo querer atear fogo neste prato que, ainda, me cozinha.

A pergunta é apenas se ele sai antes do seu amanhecer ou se tudo ocorrerá sem que você perceba que se passou o pôr do sol... Enquanto isso...enquanto isso ainda sofro em silêncio, diminuída, abatida e castrada, mas já vislumbro um entardecer...que pena....

Um comentário:

Rô Godoy disse...

Amoreeee

Vc é muito amada, muito querida, muito linda e especial. Gostei muito de ler esse texto agora... que acabei de ver o horário (meia-noite e 3) e não sei se consigo te ligar como prometido, eu meio que me perco no horário aqui... então me perdoe pela minha falha.... mas saiba que continuo te amando, não importa como vc esteja....

E tenho certeza que daqui pra frente, cada dia, cada noite será vivido com um pouco mais de dor, com um pouco mais de realidade e daqui a pouco a rainha dará um baile no rei e vencerá esse xadrez !!!!

Bjos mil